A tristeza das crianças.

ANJOS QUE MERGULHAM

Depois que escrevi o FUNDO DA FOLIA falando sobre a enorme quantidade de latinhas de cerveja e refrigerantes encontradas no fundo do mar após o carnaval, com a repercussão mundial que a matéria teve, pensei que as coisas fossem melhorar este ano. Estava enganado.

Hoje, em plena primavera, fui mergulhar com minha filha de 10 anos e uma coleguinha de escola da mesma idade para mostrar-lhes as belezas do fundo do mar na região da Barra. Não imaginava que presenciaria, ainda nesta época do ano, um festival de latinhas fazendo a prévia do verão e dos eventos que se aproximam.

Fiquei surpreso pelo achado. Sem os eventos, mas com uma população flutuante bastante numerosa na Barra durante os dias de sol, uma multidão de ambulantes se instala por todos os espaços disponíveis na orla do bairro para fomentar um costume que tem se tornado cada vez mais nocivo ao meio ambiente e a nossa cultura, que é o consumo exagerado de bebidas alcoólicas na praia.

COSCIÊNCIA E ESPERANÇA

Basta olhar o que a maioria dos ambulantes vende como carro chefe, e mais ainda o que encontramos no fundo do mar. É impressionante a quantidade de latas de cerveja que se amontoam em determinados locais. Não há outro material descartado, outro tipo de lixo, que se compare ao volume do que vemos nestas áreas submersas.

Minha filha e sua coleguinha ficaram decepcionadas quando viram a concentração destes resíduos em meio à vida marinha. Aliás, não há quem não consiga esboçar alguma reação ao ver cenas tão marcantes, ao vivo e a cores. Cenas que nos fazem refletir sobre a gravidade da atual situação da educação e saúde da nossa gente, e também da falta de uma ação eficaz dos órgãos públicos.

As crianças ficaram um bom tempo olhando com atenção aquelas latinhas rolando ao sabor das correntes. Depois de um tempo, subiram na prancha de surf que levo como apoio e começaram a me questionar algumas óbvias considerações sobre o assunto.

AINDA É PRIMAVERA. E NO VERÃO?

Perguntaram-me como é que as latinhas conseguem ficar agrupadas daquela maneira. Respondi que na verdade elas acabam encalhando em algumas “valas” submarinas após serem levadas do raso para o fundo com o movimento das marés.

Queriam saber os motivos pelos quais não víamos com freqüência outros tipos de resíduos poluentes além das latinhas de cerveja. Mostrei ainda de dentro d’água a quantidade de ambulantes vendendo a bebida nas areias e calçadas, e a multidão de pessoas consumindo o produto que custa o preço de uma garrafa de água mineral.

Questionaram-me sobre os impactos negativos na vida marinha. Afirmei sem a menor dúvida que aquilo poderia ser uma das razões para que seus filhos ou netos, em futuro próximo, jamais tivessem a oportunidade de contemplar os peixes que estávamos vendo, os corais, aquelas águas cristalinas.

A HORA DAS PERGUNTAS. UMA SEM RESPOSTA…

Só não consegui responder a mais óbvia das perguntas: por que ninguém faz nada?

Engoli seco, pensei rápido e a única coisa que passou em minha cabeça foi o próprio sentimento de que todas as ações que havia feito até ali, incluindo O FUNDO DA FOLIA no Carnaval deste ano, não surtiram efeito algum. Fiquei de responder depois, e seguimos nosso mergulho.

Mais adiante encontramos novos focos de latinhas e em todos estes momentos as crianças paravam para comparar a quantidade e a marca das embalagens. Achei aquilo de uma importância fenomenal para a formação da consciência daquelas futuras brasileirinhas em favor da educação e saúde da nossa gente.

BRASILEIRINHAS QUE PODEM MUDAR O MUNDO

Depois de quase duas horas mergulhando saímos do mar. Naquele momento, ao chegar à beira da praia e começar a andar pelas areias lotadas de gente se fartando de comidas e bebidas em meio a um turbilhão de ambulantes, percebi que as crianças entenderam a minha falta em relação àquela pergunta que havia ficado sem reposta.

As latas que estavam no fundo do mar estavam bem ali, por toda a areia, espalhadas como reflexo de uma cultura de praia pouco saudável e completamente deseducada. O costume do consumo exagerado de bebidas alcoólicas em Salvador já venceu a força dos órgãos públicos e aos poucos vai vencendo a resistência do meio ambiente.

Mas há esperança enquanto mentes de anjo, como daquelas crianças, puderem ter a oportunidade de vivenciar experiências assim para compartilhar em seus mundos, em suas escolas, em suas vidas.

O LIXO MAIS EVIDENTE NO FUNDO DO MAR

Só não há razão para continuarmos sem saber os motivos pelos quais ninguém consegue fazer nada que consiga reverter este quadro lamentável na raiz do problema. Não há mais época do ano em que o cenário fique livre de tantas latinhas.

Para a tristeza de nossas crianças…

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O carnaval e o forte.

FORTE SANTA MARIA. UM ESPETÁCULO!

Diante de tantas polêmicas recentes envolvendo o carnaval na Barra por conta dos seus impactos negativos aos patrimônios culturais e ambientais, que tal  considerar  a própria folia como uma das  grandes responsáveis pela revitalização do bairro e suas potencialidades sócio culturais?

Uma festa tão grande que consegue movimentar milhões de dólares e tem uma projeção internacional sem precedentes é um excelente produto para promover algumas contrapartidas necessárias ao desenvolvimento sustentável de Salvador.

DA JANELA DO FORTE

Gostaria, por exemplo, que o Carnaval de 2011 fosse lembrado para sempre como aquele que se preocupou verdadeiramente com a qualidade de vida das pessoas da nossa cidade restaurando o Forte de Santa Maria no Porto da Barra. Esta medida seria um primeiro passo para aproveitar a milionária folia em favor de uma ação de interesse difuso, coletivo, que teria aproveitamento perene por esta e as futuras gerações.

O Forte Santa Maria é um patrimônio tombado pela União que se enquadra perfeitamente na redação do artigo 216 da Constituição Federal que fala dos Patrimônios Culturais Brasileiros, e que por este motivo simboliza um valor sem precedentes para o país.

O FORTE À NOITE

Gostaria de ver artistas, donos de camarotes, empresas patrocinadoras, blocos e todos aqueles que enchem as suas contas bancárias por conta da alegria efêmera dos foliões, que só fazem gastar, unidos para realizarem algo tão positivo.

Gostaria de ver o Carnaval como uma verdadeira ferramenta de transformação social capaz de ajudar a iniciativa pública a enfrentar os desafios da educação, da saúde e da cultura das pessoas. É possível acabar com a impressão de que este é um evento que apenas privatiza seus lucros e socializa seus prejuízos, a exemplo das imagens fortíssimas que foram exibidas após o Carnaval de 2010, com fundo do mar da praia da Barra repleto de latinhas de cerveja.

O FUNDO DA FOLIA

Tenho certeza que deixar esta obra tão necessária para a cidade é algo plenamente possível. Existem muitos artistas com criatividade e comprometimento verdadeiro com a cultura da nossa cidade que podem enxergar a maneira de realizar este feito.

Estou certo, também, que os grandes financiadores da folia poderão se sensibilizar com a causa ao perceberem que mais vale investir em um patrimônio desta grandeza do que continuar patrocinando a mesmice decadente de algumas iniciativas carnavalescas completamente insustentáveis.

PAISAGEM APRECIADA PELO MUNDO

O Forte Santa Maria restaurado poderá servir a diversas atividades educativas, culturais e de turismo permanentes. O Forte que encanta a Praia do Porto da Barra a ponto de projetá-la para o mundo como uma das mais belas entre todas, e que está agonizando à sua própria sorte, merece esta justa homenagem.

Fico na torcida aguardando que os Deuses, os Orixás e todas as outras formas de poder superior possam tocar no coração de alguém que seja do bem e que tenha o dom do convencimento para conseguir agregar pessoas influentes em torno deste projeto.

PORTO DA BARRA SEM IGUAL

Pessoas que possam perceber o alcance de uma ação verdadeiramente cultural como essa e que vai alcançar efeitos extremamente positivos, inclusive na educação da nossa gente.

Assim é que o carnaval poderá começar a se tornar um grande parceiro dos nossos patrimônios culturais e ambientais, saindo da condição de mero promotor de alegrias transitórias e de resultados culturalmente questionáveis, para assumir uma postura verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento da própria cultura nacional.

O FORTE QUE O CARNAVAL VAI RESTAURAR

O mínimo que a Barra merece pelos castigos carnavalescos sofridos ao longo de tantos anos é uma contrapartida desse nível. O Carnaval e o Forte devem fazer as pazes por uma cidade melhor.

Pra começar a socializar os lucros da milionária folia em favor de um patrimônio cultural brasileiro tão importante.

Praia e castigo.

PATRIMÔNIO CULTURAL

Dia 12 de outubro foi o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, um feriado nacional ensolarado que levou milhares de pessoas à praia do Porto da Barra em Salvador. O que se viu neste dia, e na manhã seguinte, foi algo assustador, o prenúncio da catástrofe que será o verão que se aproxima para um dos maiores patrimônios culturais do país.

Naquele dia, por volta das 14 horas, tentei chegar até a praia para dar um mergulho em louvor a nossa Padroeira, mas foi impossível. Raramente vi tanta gente por aquele pequeno espaço da orla de Salvador.

CASTIGO NAS RUAS

Foi difícil andar pelas calçadas. Elas estavam tomadas por isopores, Baianas de Acarajé, carrocinhas de cachorro quente, churrasquinhos, maquinas de caldo de cana, latas com carvão para queijinhos coalho, sombreiros, cangas, óculos, artesanatos, entre outras coisinhas pra gringo ver.

Invasão de ambulantes

A situação da balaustrada era igualmente caótica. Também loteadas por ambulantes em sua maioria com caixas de isopor cheias de cerveja, fomentavam aglomerações de pessoas “comendo água” (leia-se, consumindo bebidas alcoólicas) e fazendo aquela “lambança” com seus carros de som nas alturas e o consumo deseducado de tudo que era “iguaria gastronômica” disponível nos arredores.

Andei para o largo do Forte Santa Maria onde uma verdadeira “festa de largo” acontecia e de lá pude ver como estava a praia. Se nas calçadas e balaustradas a situação era caótica, imaginem como estava a areia. Algo difícil de descrever.

SOMBREIROS ALUGADOS POR AMBULANTES
Por todos os lugares que olhava o cenário era o mesmo, destruição total. E se estamos ainda na primavera, imaginem o que vai acontecer no verão quando a praia ficar lotada a partir do meio da semana, vierem os eventos, os ambulantes se multiplicarem, os órgãos públicos aproveitarem o caos para justificarem suas incompetências e a mídia começar a patrocinar verdadeiras panacéias com seus comentários equivocados ao incentivarem a bebedeira e a “comelança” na praia em dias de sol.
CASTIGO NAS AREIAS

Não posso imaginar que este cenário caótico seja do interesse de alguém que almeja uma cidade melhor, mais limpa e saudável. Não posso acreditar que exista um conluio velado entre alguns setores públicos e iniciativa privada para tirar proveito disso tudo. Será?

Quem assistiu o filme Tropa de Elite 2 certamente ficará desconfiado…

Como não adianta especular sobre a “teoria da conspiração” em desfavor da praia do Porto da Barra, vou concordando com um senhor que freqüenta a praia há mais de 40 anos que atribui a balbúrdia, infelizmente, à invasão dos milhares de ambulantes que levam o lixo até as praias e seu entorno fomentando a deseducação generalizada de nossa população. Aspecto, aliás, do qual Salvador é campeã.

CASTIGO NO FUNDO DO MAR

Este senhor não tem dúvidas, inclusive, que muitos dos problemas do bairro são potencializados pelo descontrole nesta atividade. Além da poluição das praias e seu entorno, há impacto negativo sobre os eventos, vias públicas, equipamentos públicos, comércio local, turismo, conservação de patrimônios históricos e na própria qualidade de vida dos moradores que pagam um dos IPTUs mais caros de Salvador.

QUEM LEVA O LIXO PARA A PRAIA?

Segundo o velho, não há solução para o problema se o corte na atividade dos ambulantes não for radical. Para ele não adianta ordenar os trabalhadores se a prefeitura não conseguir fiscalizá-los adequadamente, e isso é algo que jamais presenciou em toda a sua vida. Tanto assim que a situação atual é medonha.

A princípio achei o velho senhor um pouco radical e questionei o que seria feito com os trabalhadores que há muitos anos labutam sua sorte na praia do Porto da Barra. A resposta foi que não se pode penalizar a sociedade como um todo em detrimento de dezenas de cidadãos que não fazem por onde merecerem a concessão de um espaço público tão nobre para trabalharem. E a orla de Salvador é cheia de praias sem Fortes, sem Marcos, sem naufrágios, sem história e sem cultura.

QUEM GANHA DE VERDADE COM ISSO?

Não se pode dizer que ele não tenha razão…

Da minha parte, sem ser tão radical, acredito que proibir ambulantes nas calçadas e balaustradas, recadastrar, ordenar e reduzir pelo menos 60% dos que ficam nas areias já seria um bom começo. Se houver fiscalização permanente, acho que teremos de volta a 3ª melhor praia urbana do mundo servindo a todos como patrimônio cultural e ambiental de grande valor.

No dia seguinte ao feriado, fui cedinho dar um mergulho na praia antes de ir para o trabalho. Ao chegar na balaustrada fiquei seriamente inclinado a concordar com a posição do velho senhor sobre a “tolerância zero” em relação aos ambulantes.

AREIA BOA PARA BACTÉRIAS

O lixo, a paisagem deprimente e o mau cheiro deixados pela “muvuca” do dia anterior eram insuportáveis. Caí no mar enojado em meio a sujeira que boiava ao meu lado apenas para matar a vontade do dia anterior.

BANHO DE MAR

E em meio a tantas especulações sobre o que fazer para salvar um patrimônio cultural tão importante, certo é que a praia do Porto da Barra não merece tanto castigo. Nem a Padroeira do Brasil…

Educação, saúde e segurança.

Devo estar morando em outro planeta. É assim que me sinto diante de tantas propagandas eleitoreiras que tenho visto por aí. Só coisas boas…

Fico pensando se o código de defesa do consumidor funcionasse para coibir as propagandas enganosas desta turma de candidatos políticos, seus marqueteiros e apadrinhados. Ia ser uma festa de indenizações para os eleitores.

Porque o que mais vemos e ouvimos por aí é candidato antipático fazendo caras e bocas de simpático, candidato racista tirando onda de bonzinho, candidato preguiçoso falando que vai trabalhar muito, candidato rico dizendo que vai cuidar dos pobres e candidato destruidor do meio ambiente tirando onda de ambientalista.

O nível do marketing das campanhas está de causar angustia. Todos sujando a cidade com seus santinhos, todos poluindo o visual das nossas paisagens com seus banners e balões, todos azucrinando nossa paz com seus carros de som nas alturas, todos promovendo verdadeiros engarrafamentos com suas carreatas e concentrações de campanha.

Com tantas irregularidades e ações impopulares imaginem o que farão eleitos.

É muito raro encontrar um candidato que não faça aquelas promessas de jargão e que tenha atitudes inovadoras, criativas e inteligentes em sua campanha. Aliás, se souberem de algum que tenha a coragem de se lançar na contra mão de todo este circo, me avisem, pois ainda não tenho candidato para deputados e senadores.

Defini apenas meu voto para Presidente da República e, a única dica que posso revelar, por uma questão de princípios, é que estou lá por baixo nas pesquisas, mas reagindo. Fiz esta escolha porque acho que o país precisa aproveitar os próximos anos com uma atitude diferente.

Explico. Não consigo entender como o Brasil avançou tanto na distribuição de renda aos pobres, tenha pagado sua divida externa, tenha alcançado índices positivos em diversos seguimentos da economia, ganhou projeção econômica internacional, mas, por outro lado, continua andando de ré quando o assunto é educação, saúde e segurança. Há projeção internacional positiva nestes seguimentos?

Sinceramente, pense se hoje você se sente mais seguro que ontem, se hoje você se sente mais amparado pelo SUS que ontem, e se hoje você já acredita no ensino público de qualidade?

Se sua resposta for positiva, diga-me os motivos pelos quais as famílias dos políticos ainda não usam o SUS e as escolas públicas? Diga-me também por que não confiam apenas na proteção das polícias tendo que contratar empresas de segurança privada?

Não consigo entender como um governo é capaz de criar o FOME ZERO e completamente incapaz de ao menos propor o SEGURANÇA 7, a SAÚDE 8 e a EDUCAÇÃO 10. Estas são questões tão vitais para qualquer nação como o próprio ar que respiramos. Precisamos de uma verdadeira “revolução” nestas áreas.

Alguma coisa está fora do eixo. O país que se gaba de dar comida, televisão e geladeira para o pobre, não consegue lhes ofertar segurança, saúde e educação de qualidade razoável. O desenvolvimento econômico tem sido prioridade em relação ao desenvolvimento social, o que é um pouco desumano.

Por isso acho que as campanhas eleitorais atuais com suas gastanças ostensivamente imorais têm muito a ver com a falta dos governos nas áreas da “revolução”. A busca por verbas para tais gastos parece ser algo tão obsessivo ao longo dos 4 anos que um político leva no cargo, que muitos deles acabam se rendendo às demandas politicamente mais rentáveis aos seus próprios interesses do que ao bem comum.

Campanhas eleitorais devem acontecer apenas nas televisões e nas rádios em condições muito semelhantes, pois o eleitor interessado no voto saberá onde buscar seu candidato.

Assim a farra do dinheiro de campanha e a covardia nas disputas entre quem tem mais e quem tem menos recursos para o marketing pode acabar. E de quebra seremos poupados da sujeira pelas ruas, da poluição visual, da bandalheira sonora e da confusão que estas ações de baixíssimo nível causam em nossas vidas.

Enquanto esse dia não chega, vamos sonhando alto e engrossando as fileiras em favor desta causa. E rezando para que apareça alguém diferente e com a reencarnação de alguma grande liderança da nossa história mundial, capaz de realizar esta proeza tão nobre, tão humana e tão fácil, antes que seja tarde demais.

Por um país mais educado, saudável e seguro, vamos à “revolução”. Sem campanhas pirotécnicas e financeiramente humilhantes aos nossos olhos, e sem descuidar do meio ambiente, por favor…

O errado sou eu ?

Não posso mais me queixar aos senhores leitores das coisas erradas que existem aqui pela Barra. Caí na real de que toda esta indignação e vontade de resolver tantos problemas que afligem a todos nós moradores do bairro pode ser algo muito equivocado.

Senão como explicar a multiplicação de irregularidades em tão pouco tempo e a aceleração do processo de degradação tão ostensivo, sem que nada de concreto esteja sendo feito pelos órgãos públicos e grande parte da própria comunidade local para resolver tamanhas excrescências sociais?

Devo estar completamente enganado em resmungar ao andar por quase toda a extensão da Rua Marques de Caravelas, literalmente pela rua, ao me esforçar para driblar as bancas de frutas, revistas e muitos ambulantes pelo caminho. Não há como andar por uma calçada repleta de buracos, desníveis, paradas de ônibus, carros estacionados, cocô de cachorro, postes e orelhões em um espaço tão diminuto.

Fico louco de raiva quando vejo os idosos parados em meio aos obstáculos esperando uma oportunidade de seguirem seus caminhos. Crianças em carrinhos de bebês nem se fala…

Vergonha pelas ruas.

E sobre a quantidade de linhas e a quantidade de ônibus que circulam pelas ruas estreitas do bairro e sem a menor estrutura para receber tantos impactos negativos?

É só olhar para o estado do asfalto, para o caos que os pontos de ônibus geram aos pedestres durante os horários mais movimentados e para os constantes engarrafamentos com “buzinaços” que ocorrem pela total desorganização no transito. Um absurdo.

Estou ficando rabugento também pela quantidade de “puxadinhos” que é possível ver por todo o bairro em imóveis que estão escancaradamente visíveis aos olhos dos órgãos fiscalizadores. As pessoas têm favelizado o bairro aumentando suas áreas irregularmente para os lados e para cima sem qualquer critério, como se aqui fosse um bairro popular onde não há pagamento de IPTU, laudêmios e muitas outras taxas que exigem uma ação mais pontual do poder público.

Andar por onde?

Na Barra o xixi continua sendo atração cultural e os carros com som alto podem estacionar bem em frente ao módulo policial do Instituto Mauá que não há qualquer problema. Pelo contrário, é neste trecho onde ambulantes se apropriam das calçadas com seus botecos móveis para fomentar uma baixaria sem precedentes regada a muita bebedeira, muita sujeira e tudo de ruim que se possa imaginar para um local que deveria ser protegido de tantos abusos por seu valor histórico e cultural.

Sinto-me lesado por pagar um dos IPTUS mais caros da cidade, viver há quase 40 anos no Porto da Barra, ter laços de vida com o bairro e não poder mais parar na balaustrada para contemplar um por do sol em paz sem ter que encarar tantas coisas feias, tanta sujeira e muito mal cheiro.

Fico estressado quando tento curtir uma praia e logo na chegada começo a ser atacado por ambulantes brigando entre si para ver quem vai me alugar um sombreiro ou uma cadeira, ou me vender alguma coisa.

A praia do Porto da Barra virou eterna festa de largo e a cada dia de sol que antecede o verão os problemas vão se acumulando sem que ninguém possa fazer nada.

Fundo da praia do Porto da Barra

As areias viram “farofas” de lixo se tornando um risco para a saúde das pessoas. A coisa fica pior com os criminosos eventos de verão que atropelam as leis de proteção aos patrimônios culturais do Bairro, para servir a argumentos tão injustificáveis como o próprio ato de se fazer cocô bem no jardim da casa de qualquer político, gestor público ou morador que concorde com tais abusos.

Muito cruel também é a dor que sinto quando faço meus mergulhos pelas águas ainda cristalinas da Barra, e dou de cara com o cenário desolador do lixo que vai para o oceano em razão da “alegria” dessas pessoas que estão matando o bairro. É triste…

Não vou falar dos mendigos, dos “sacizeiros”, da prostituição e do tráfico de drogas para não enlouquecer. Só de imaginar tratar destes assuntos já me vem uma forte dor de cabeça…

Será que ele tá certo?

A verdade é que não estou agüentando conviver com tanta permissividade dos órgãos públicos e com tanta falta de ação de muitos moradores e comerciantes que só fazem reclamar e não mexem uma palha para tentar ajudar aos movimentos que estão aí carentes de mais e mais apoio para defender os interesses coletivos.

Tenho certeza que eventualmente as pessoas ligam para denunciar irregularidades de rotina e quase nunca são atendidas. Quanto a isso, acho que estou ficando traumatizado já que é duro saber que pagamos nossos impostos e não conseguimos ter qualquer retorno por isso. É muito deprimente ter que achar que nós, cidadãos comuns, é que vamos ter que acabar fazendo o papel do fiscal da SET, da SESP, da SUCOM, da Vigilância Sanitária, do IMA, dos gestores da SALTUR, da Polícia, do Prefeito…

A foto não revela a sujeira e o mau cheiro, só o visual.

Não, não vou adoecer por tantos sentimentos ruins. Vou fazer uma reflexão profunda sobre todas estas coisas para entender a origem de tanto desgosto por tudo que está acontecendo na Barra.

Só estou receoso de concluir que a permissividade dos órgãos públicos e o silêncio de muitos moradores e comerciantes aqui do Bairro seja o que há de mais correto nesta estória. Que a degradação promovida por tudo de ruim que falei seja algo positivo aos olhos destas pessoas, ou melhor, que eu é que esteja vendo tudo errado.

De qualquer sorte, se assim for, jamais farei xixi no Marco de Fundação da Cidade ou estacionarei meu carro com som alto próximo a balaustrada do Porto da Barra para entrar neste grupo.

Prefiro arriscar fazer um cocôzinho no jardim ou na porta da casa de um político, de um gestor, de um morador ou de um comerciante que seja solidário com esta maneira caricata e muito injusta de cuidar da cidade.

E ninguém vai se importar com isso, muito menos eu.

Ainda sou otimista!

Mais Surf para um mundo melhor.

Sempre achei que o surf é uma atividade que agrega muitos valores legais às pessoas que tem o privilégio de praticá-lo. Mas houve um período difícil até que o surf virasse este verdadeiro “acontecimento” para o mundo.

Quando comecei a dar minhas primeiras remadas sobre uma prancha lá pelo final da década de 70, o surf era uma prática muito questionada pela sociedade em razão do seu envolvimento natural com tudo aquilo que era um pouco diferente, digamos assim, naquele momento político. Estávamos saindo de um regime militar no Brasil onde as liberdades eram aprisionadas e a censura imperava na música, na arte, na literatura, na imprensa, no comportamento e no pensamento das pessoas.

Surf, saúde, emoção...

O surf, que havia começado no Brasil efetivamente na década de 60 em meio a um turbilhão de acontecimentos políticos e sociais, logo se ligou aos movimentos tidos como contestadores a exemplo do movimento Hippie, do Rock in Roll, do Tropicalismo, de seguimentos da literatura, da poesia, do cinema e tudo o mais que fosse de encontro ao “sistema” daquela época. Por conta desta relação instintiva com tais movimentos o surf também foi rotulado por muitos como atividade marginal, de perigo eminente à formação de jovens sadios, atrelado ao consumo de drogas e a um estilo peculiar de comportamento.

O surf é apaixonante.

Na escola, em 1977, aos 11 anos de idade quando iniciei minha vida no surf, eu começava a me sentir um pouco diferente dos meus colegas. Eu começava a me integrar totalmente e de maneira muito passional a uma atividade física intensa que me colocava espiritualmente ligado a natureza e ainda por cima me deixava eufórico pelo mais puro sentimento de liberdade.

Eu era um pré adolesceste que experimentava algo quase que proibido com a natural preocupação dos meus pais que viam aquilo como uma novidade ainda cercada de muitas interrogações. Mas tive a sorte de contar com o incentivo deles ao perceberem que a cada dia eu me tornava mais saudável, mais amável e consciente de coisas super importantes na vida.  Mesmo aturando aqueles comentários perniciosos de que surfista era vagabundo e maconheiro…

Darius também iniciou nos anos 70.

Os anos foram se passando e aquela turma bronzeada de costumes diferenciados acompanhava em meio às ondas as transformações que o país experimentava após a queda da censura e do regime militar. Muitas coisas que eram tratadas como subversivas e contrárias ao interesse nacional passaram a ser valorizadas e incluídas com admiração na cultura do país.

O movimento Hippie foi reconhecido como uma ação legítima de protesto pacífico, o Rock in Roll se tornou eterno, o Tropicalismo produziu uma das mais interessantes e valiosas contribuições para nossa música popular, o cinema vingou e escritores e poetas que tiveram suas obras caçadas se tornaram referências literárias.  Neste mesmo embalo o surf virou um esporte mundialmente reconhecido por sua beleza, profissionalismo e valores agregados. Aliás, mais que um esporte, um estilo de vida apaixonante!

Envolvimento total com a natureza.
Envolvimento total com a natureza. O autor...

A lição dessa reviravolta social, política e cultural demonstra a dinâmica da evolução das pessoas aqui na terra e a obrigação que temos de estarmos antenados às necessárias tendências que vão se desenhando em nossas vidas com foco no bem estar global. Aquelas pessoas que perseguiram seus sonhos e lutaram por suas convicções batendo de frente com os conceitos socialmente corretos daquele tempo tiveram participação importante na conquista das liberdades que experimentamos hoje.

Temos agora que manter esta conquista e lutar por questões emergenciais em nossos dias, como por exemplo, a conservação do meio ambiente. Acho que temos uma visão de vanguarda sobre este assunto.  Por isso estou certo do nosso poder de contribuir com as grandes transformações positivas na direção do bem estar global por termos na essência das nossas almas uma inquietação muito grande em desfavor das coisas que possam agredir a saúde das pessoas, a liberdade e a natureza neste planeta.

Zé Augusto acumula mais de 30 anos de surf.

Assim, aos mais novos aconselho não deixarem que o surf se torne uma obsessão em suas rotinas, pois, aí, fatalmente, vocês já não estarão sendo multiplicadores das coisas boas que o esporte proporciona. O surf também exige disciplina.

Aos da minha geração, que bom que estamos vivos e ainda surfando com muita paixão. Creio que ainda há muito por fazer para continuarmos “contaminando” as pessoas ao nosso redor com a alegria e a jovialidade que enche nossas almas após cada sessão de boas ondas.

Aos mais velhos, minhas deferências! Vocês são e sempre serão meus ídolos por terem tido a oportunidade de, ingenuamente, viver dias mais românticos no surf quando tudo ainda era pura descoberta. Vocês abriram as portas do paraíso para todos nós e por isso merecem nossa eterna gratidão. Elejam o meio ambiente como prioridade, em nome dos seus filhos e seus netos.

A todos, mais surf por um mundo melhor…

Texto publicado simultanemante no site EasyDrop (Itacaré) apoiando o projeto  “Punho Forte



Menosprezando a história.

De proporções inconcebíveis para um espaço tão pequeno e sensível como a Praia do Porto da Barra, o ESPICHA VERÃO e o MÚSICA NO PORTO precisam ser reavaliados urgentemente para as próximas edições, principalmente pela ótica dos poderes públicos.

Não quero reclamar do lixo gerado pelas ruas, praia e oceano, isoladamente. Não quero mais falar do xixi, do cocô, do mau cheiro, da invasão de ambulantes, do barulho ensurdecedor, do transito caótico e da depredação de objetos públicos, apenas por uma percepção pessoal.

Não vou ecoar as vozes indignadas dos moradores e comerciantes locais que pagam IPTU de “área nobre” e são obrigados a engolir tamanha esculhambação em suas portas, apenas com a visão de quem mora no bairro.

Quero falar dos problemas que estes eventos geram com a amplitude que merecem por estarem acontecendo em uma praia diferente das outras.

A praia do Porto da Barra é um museu a céu aberto, um sítio arquitetônico de beleza rara e um evento que transcende estas tentativas efêmeras de se levar cultura e diversão ao nosso povo a um custo elevado e impactos duvidosos.

Os problemas gerados ali não são reclames que possam ter tratamento isolado como algo de interesse do bairro, apenas. São problemas que interferem na identidade da nossa gente, na história da nossa cidade e do nosso país.

Não tem cabimento ver diversos órgãos públicos permitindo, financiando e promovendo eventos que agridem um sítio histórico e cultural tão relevante como a praia do Porto da Barra.

Só o fato de se montar palcos enormes em cima do Marco de Fundação da Cidade do Salvador, uma obra ofertada pela colônia portuguesa á Bahia e que retrata a chega de Tomé de Souza no local, já demonstra um absurdo injustificável.

Primeiro pela agressão oficial a um espaço que deveria ser blindado, melhorado e promovido nacional e internacionalmente como um Marco da própria história do nosso país. Depois, no mínimo, por representar um desdém àqueles que nos presentearam com peças tão valorosas.

Tamanho contra-senso nos leva a tecer especulações temerosas na busca de argumentos que possam fundamentar o que parece sem fundamento.

Talvez a crença de que ações sem o devido planejamento possam se justificar sob o manto de apelos oportunos, mesmo esbarrando na lei, seja uma explicação.  Um argumento sem o menor propósito que certamente resultará em grandes prejuízos para a sociedade em futuro próximo.

Um exemplo atual é a catástrofe causada pelas chuvas e as ocupações irregulares em áreas de risco no Rio de Janeiro. Tais locais foram asfaltados, ganharam iluminação pública e toda a infra-estrutura básica do próprio governo que acabou virando algoz da situação.

Em Salvador as barracas de praia foram crescendo em numero e tamanho, ganhando fama de favelas e enfeando nossa orla para se tornarem um enorme problema para a cidade. E governos também foram solidários por anos concedendo licenças e incentivando sua proliferação por interesses aparentemente eleitoreiros, mesmo atropelando a lei.

Da mesma maneira é possível falar, por analogia, de grandes eventos em locais inadequados como o Carnaval, o ESPICHA VERÃO e o MÚSICA NO PORTO.

É previsível que se medidas não forem tomadas pelos poderes públicos para reformular tais iniciativas tornando-as menos agressivas a local tão sensível como a orla da Barra, poderemos presenciar uma enorme catástrofe cultural, ambiental e de identidade, em breve.

É curioso, por exemplo, no caso do ESPICHA VERÃO, ver tantas placas publicitárias espalhadas pela praia promovendo os órgãos públicos e seus parceiros, e não ver uma placa sequer contando a história do Porto da Barra, dos seus fortes e da própria cidade do Salvador.

É triste ver o Forte São Diogo e o Forte Santa Maria cercados por placas publicitárias e banheiros químicos em nome de eventos que pouco se preocupam com a geração de benefícios para o local.

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Não há como deixar de dizer que nossa história tenha sido empurrada para dentro de vasos sanitários, sem a menor cerimônia, e que o turista que gosta de eventos assim não interessa em nada à nossa cidade.

Por essas e outras é que a praia do Porto da Barra precisa de atenção especial. Sua degradação progressiva é plenamente tangível e preocupante. É necessário que medidas sejam tomadas para que toda a praia do Porto da Barra seja protegida por conta de sua importancia no cenário histórico, ambiental e cultural.

Daí porque um plano de revitalização ousado é necessário. Tornar a praia do Porto da Barra uma referência para o turismo de qualidade em Salvador será um investimento muito mais inteligente do que aquele destinado a eventos de resultados passageiros e duvidosos.

Quero deixar claro que não sou contra os eventos tratados aqui, pelo contrário, sou a favor de todos eles pela qualidade da estrutura e principalmente dos artistas que se apresentam, porém, em outra praia.

Quero dizer também que acredito muito na boa fé dos órgãos públicos. Faço aqui apenas os inevitáveis comentários visando alertar os gestores sobre a temerária participação em eventos que devem ser meticulosamente analisados por seus impactos ambientais, culturais e turísticos antes de serem liberados. E mais ainda, antes de receberem recursos públicos.

Só fiquei um pouco triste com a mídia. As matérias foram brilhosas ao extremo e não houve espaço para mostrar um pouquinho das coisas que tratei por aqui. Parece até que estou vendo chifres em cabeça de mula.

De qualquer sorte, supondo que só eu tenha percebido tantos absurdos, ou mesmo que esteja completamente equivocado, não há como negar que tais eventos menosprezaram nossa história.

Pior, sob a complacência dos órgãos públicos…