O OUTRO LADO DA FOLIA

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O OUTRO LADO DA FOLIA

Realizada a primeira sessão ordinária do projeto Câmara Itinerante, no último dia 27 na Barra, o que se viu foi o reaquecimento da discussão sobre os efeitos negativos do atual modelo de carnaval para o bairro. A queixa foi geral. Muitos vereadores se manifestaram a favor de uma discussão mais ampla sobre o tema com a inclusão de representantes da Barra nas decisões sobre seu planejamento e organização. Porque a percepção de que este modelo já não cabe mais no bairro foi evidente.

Certo é que a banalização dos absurdos tem feito o carnaval da Barra um  negócio ainda rentável e agradável para muitos. Entretanto, o discurso da geração de renda e alegria para a cidade vem perdendo força ante o grito do “outro lado da folia”.

A Barra possui vocação incompatível com o agigantamento atual do carnaval. É um bairro residencial com comércio pulsante, possui patrimônios culturais extraordinários e é uma das maiores atrações turísticas da Bahia. Sem eventos ela já é um grande acontecimento e palco do seu próprio espetáculo!

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Qual a vocação da Barra?

 

Porém, há quem goste do bairro justamente por sua “carnavalização”. Para estes a Barra não passa de uma arena para todo e qualquer tipo de evento. Tratam-na como mera embalagem descartável sem se importar com o apodrecimento do seu conteúdo. O carnaval que aí está é o maior exemplo. Patrimônio cultural é um detalhe.

Por ser contra a “carnavalização”, e a favor do correto aproveitamento da sua vocação natural, fui com minha curiosa ignorância em busca de leis que pudessem respaldar esta posição. Ou, talvez, a posição dos que pensam diferente.

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“Carnavalização” cultural da Barra.

Direto à Constituição Federal, vi de cara, no artigo 23, que é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos, além de impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de todos eles.

Para ficar claro, no art. 216, a Constituição Federal considera “Patrimônio Cultural Brasileiro” os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem, dentre outros, os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Diz ainda que o Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o “patrimônio cultural brasileiro” por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.

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Promoção, proteção do patrimônio cultural (?)

Eis que a orla da Barra é um Patrimônio Cultural! Possui conjunto urbano e sítios de valor histórico, paisagístico, ecológico, arqueológico e científico. Tanto que seus Fortes são tombados pelo IPHAN e está em curso a implantação do Parque Municipal Marinho da Barra pela importância de seu conteúdo. Trata-se, ainda, de uma das mais belas paisagens da Bahia.

Proteger este acervo não é opção, é obrigação dos cidadãos e dever de ofício de todas as esferas de governo. Não é questão de gosto, é de lei! Então porque estas leis não se aplicam ao carnaval da Barra com a mesma eficiência que aquelas que me obrigam a pagar IPTU e multas de transito? Será que seguem a lógica da conveniência, como tudo neste país?

O que vimos no Farol este ano foi lamentável. Sua descaracterização e degradação dispensam comentários. Será que a caricata fantasia que escondeu sua beleza o excluiu da qualidade de patrimônio histórico nacional tombado?

Espuma
Limpando as ruas, sujando o mar.

Na área do Parque Marinho o lixo e a espuma da lavagem das ruas e banheiros químicos certamente tornaram as praias impróprias durante toda a festa. E afetaram seu ecossistema. A espuma é biodegradável, mas, e o lixo que ela carrega para o mar?

O que dizer da ocupação do mesmo espaço por dezenas de embarcações ancoradas sobre os naufrágios? São sítios arqueológicos protegidos pela lei, não são?

Nau
Conjunto urbano e sítios arqueológicos em xeque…

Também sofrem comerciantes e moradores. As queixas estão crescendo em razão dos prejuízos, do sucateamento do potencial do bairro para investimentos de qualidade, do barulho, da depredação de vias e equipamentos públicos, da montagem e desmontagem do circo, etc…  Tem lei para isso, não tem?

Comercio
Comércio da Barra? Só um detalhe…

E sobre o trabalho análogo ao escravo que, dentre outras coisas, é reduzir alguém a esta condição submetendo-o a jornadas exaustivas e condições degradantes de trabalho? Está lá no art. 149 do Código Penal brasileiro. É quando a farra termina e o dia amanhece que famílias inteiras de ambulantes e assemelhados de baixa renda, negras em maioria, que passam a morar pelas ruas do bairro, formam o retrato fiel desta submissão. Será que ficam todos invisíveis durante a festa?

Galera
Jornada exausitva e condições degradantes de trabalho

Há muitos desatinos ganhando status de normalidade ao longo dos anos. A impressão é que o poder público se intimidou pelo assédio de interesses que não são públicos, mas, de determinados públicos, e apequenou-se ante a banalização de muitas “curiosidades”, digamos assim.

Caso contrário, como justificar a leniência dos órgãos de Direitos Humanos, do Trabalho, MP, IPHAN e Câmara Municipal, por exemplo? E a OAB? Existem questões de interesses difusos e coletivos sendo ameaçados. Meio ambiente e ordem urbanística são alguns. Por isso crescem os rumores sobre a possibilidade de uma Ação Civil Pública ou uma Ação Popular contra os danos morais e patrimoniais inaudíveis a quem deveria combate-los.

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Esse é o modelo: PIPOCA INDIGNADA e sua alegria sustentavelmente criativa.

Particularmente, acredito na construção de um pacto amistoso com a participação da comunidade local por um carnaval inteligente na Barra. É preciso urgência, coragem e equilíbrio entre os interesses públicos e privados. Vejo boas oportunidades para todos os envolvidos e ganhos significativos para a cidade.

Minha sugestão é por três dias sem trios, camarotes, sem a privatização das ruas, só com blocos e bandas no chão, e hora para acabar. Uma opção alternativa e mais sustentável com menos transtornos para moradores, comerciantes, meio ambiente e turismo.  Discordo dos que querem “carnaval zero” na Barra.

Esta mudança devolverá o protagonismo histórico ao circuito do Campo Grande, transformará o circuito da Barra em uma grande novidade e abrirá novas oportunidades à folia. Talvez um circuito no CAB ou na Av. da França. Ou que se pense definitivamente na construção da tão sonhada CIDADE DO AXÉ, um projeto capaz de gerar negócios muito além do carnaval.

Cab
CAB/ Stock Car: Ideal para um carnaval totalmente planejado para desafogar e oxigenar os circuitos do centro da cidade.

Por tudo isso entendo que a Barra não pode continuar refém de uma festa que tem corrompido patrimônios culturais importantíssimos e comprometido a ordem urbanística da cidade, desnecessariamente. A Câmara Itinerante acatou este entendimento e reascendeu a discussão jogando um pouco mais de luz sobre o “outro lado da folia”.

Agora é cobrar dos vereadores e demais órgão públicos uma atuação menos acanhada e mais responsável na defesa dos reais interesses da cidade para os próximos carnavais. Basta sentar à mesa em um pacto para a construção de um novo projeto para a cidade com as leis embaixo do braço e a consciência livre dos assédios carnavalescos que tornaram banais tantos absurdos. E, urgente! É minha humilde opinião…

GALERIA DE FOTOS (Clique na foto para ampliar)

 

O OUTRO LADO DA FOLIA

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O OUTRO LADO DA FOLIA

Realizada a primeira sessão ordinária do projeto Câmara Itinerante, no último dia 27 na Barra, o que se viu foi o reaquecimento da discussão sobre os efeitos negativos do atual modelo de carnaval para o bairro. A queixa foi geral. Muitos vereadores se manifestaram a favor de uma discussão mais ampla sobre o tema com a inclusão de representantes da Barra nas decisões sobre seu planejamento e organização. Porque a percepção de que este modelo já não cabe mais no bairro foi evidente.

Certo é que a banalização dos absurdos tem feito o carnaval da Barra um  negócio ainda rentável e agradável para muitos. Entretanto, o discurso da geração de renda e alegria para a cidade vem perdendo força ante o grito do “outro lado da folia”.

A Barra possui vocação incompatível com o agigantamento atual do carnaval. É um bairro residencial com comércio pulsante, possui patrimônios culturais extraordinários e é uma das maiores atrações turísticas da Bahia. Sem eventos ela já é um grande acontecimento e palco do seu próprio espetáculo!

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Qual a vocação da Barra?

 

Porém, há quem goste do bairro justamente por sua “carnavalização”. Para estes a Barra não passa de uma arena para todo e qualquer tipo de evento. Tratam-na como mera embalagem descartável sem se importar com o apodrecimento do seu conteúdo. O carnaval que aí está é o maior exemplo. Patrimônio cultural é um detalhe.

Por ser contra a “carnavalização”, e a favor do correto aproveitamento da sua vocação natural, fui com minha curiosa ignorância em busca de leis que pudessem respaldar esta posição. Ou, talvez, a posição dos que pensam diferente.

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“Carnavalização” cultural da Barra.

Direto à Constituição Federal, vi de cara, no artigo 23, que é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos, além de impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de todos eles.

Para ficar claro, no art. 216, a Constituição Federal considera “Patrimônio Cultural Brasileiro” os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem, dentre outros, os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Diz ainda que o Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o “patrimônio cultural brasileiro” por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.

056
Promoção, proteção do patrimônio cultural (?)

Eis que a orla da Barra é um Patrimônio Cultural! Possui conjunto urbano e sítios de valor histórico, paisagístico, ecológico, arqueológico e científico. Tanto que seus Fortes são tombados pelo IPHAN e está em curso a implantação do Parque Municipal Marinho da Barra pela importância de seu conteúdo. Trata-se, ainda, de uma das mais belas paisagens da Bahia.

Proteger este acervo não é opção, é obrigação dos cidadãos e dever de ofício de todas as esferas de governo. Não é questão de gosto, é de lei! Então porque estas leis não se aplicam ao carnaval da Barra com a mesma eficiência que aquelas que me obrigam a pagar IPTU e multas de transito? Será que seguem a lógica da conveniência, como tudo neste país?

O que vimos no Farol este ano foi lamentável. Sua descaracterização e degradação dispensam comentários. Será que a caricata fantasia que escondeu sua beleza o excluiu da qualidade de patrimônio histórico nacional tombado?

Espuma
Limpando as ruas, sujando o mar.

Na área do Parque Marinho o lixo e a espuma da lavagem das ruas e banheiros químicos certamente tornaram as praias impróprias durante toda a festa. E afetaram seu ecossistema. A espuma é biodegradável, mas, e o lixo que ela carrega para o mar?

O que dizer da ocupação do mesmo espaço por dezenas de embarcações ancoradas sobre os naufrágios? São sítios arqueológicos protegidos pela lei, não são?

Nau
Conjunto urbano e sítios arqueológicos em xeque…

Também sofrem comerciantes e moradores. As queixas estão crescendo em razão dos prejuízos, do sucateamento do potencial do bairro para investimentos de qualidade, do barulho, da depredação de vias e equipamentos públicos, da montagem e desmontagem do circo, etc…  Tem lei para isso, não tem?

Comercio
Comércio da Barra? Só um detalhe…

E sobre o trabalho análogo ao escravo que, dentre outras coisas, é reduzir alguém a esta condição submetendo-o a jornadas exaustivas e condições degradantes de trabalho? Está lá no art. 149 do Código Penal brasileiro. É quando a farra termina e o dia amanhece que famílias inteiras de ambulantes e assemelhados de baixa renda, negras em maioria, que passam a morar pelas ruas do bairro, formam o retrato fiel desta submissão. Será que ficam todos invisíveis durante a festa?

Galera
Jornada exausitva e condições degradantes de trabalho

Há muitos desatinos ganhando status de normalidade ao longo dos anos. A impressão é que o poder público se intimidou pelo assédio de interesses que não são públicos, mas, de determinados públicos, e apequenou-se ante a banalização de muitas “curiosidades”, digamos assim.

Caso contrário, como justificar a leniência dos órgãos de Direitos Humanos, do Trabalho, MP, IPHAN e Câmara Municipal, por exemplo? E a OAB? Existem questões de interesses difusos e coletivos sendo ameaçados. Meio ambiente e ordem urbanística são alguns. Por isso crescem os rumores sobre a possibilidade de uma Ação Civil Pública ou uma Ação Popular contra os danos morais e patrimoniais inaudíveis a quem deveria combate-los.

Ffoli14
Esse é o modelo: PIPOCA INDIGNADA e sua alegria sustentavelmente criativa.

Particularmente, acredito na construção de um pacto amistoso com a participação da comunidade local por um carnaval inteligente na Barra. É preciso urgência, coragem e equilíbrio entre os interesses públicos e privados. Vejo boas oportunidades para todos os envolvidos e ganhos significativos para a cidade.

Minha sugestão é por três dias sem trios, camarotes, sem a privatização das ruas, só com blocos e bandas no chão, e hora para acabar. Uma opção alternativa e mais sustentável com menos transtornos para moradores, comerciantes, meio ambiente e turismo.  Discordo dos que querem “carnaval zero” na Barra.

Esta mudança devolverá o protagonismo histórico ao circuito do Campo Grande, transformará o circuito da Barra em uma grande novidade e abrirá novas oportunidades à folia. Talvez um circuito no CAB ou na Av. da França. Ou que se pense definitivamente na construção da tão sonhada CIDADE DO AXÉ, um projeto capaz de gerar negócios muito além do carnaval.

Cab
CAB/ Stock Car: Ideal para um carnaval totalmente planejado para desafogar e oxigenar os circuitos do centro da cidade.

Por tudo isso entendo que a Barra não pode continuar refém de uma festa que tem corrompido patrimônios culturais importantíssimos e comprometido a ordem urbanística da cidade, desnecessariamente. A Câmara Itinerante acatou este entendimento e reascendeu a discussão jogando um pouco mais de luz sobre o “outro lado da folia”.

Agora é cobrar dos vereadores e demais órgão públicos uma atuação menos acanhada e mais responsável na defesa dos reais interesses da cidade para os próximos carnavais. Basta sentar à mesa em um pacto para a construção de um novo projeto para a cidade com as leis embaixo do braço e a consciência livre dos assédios carnavalescos que tornaram banais tantos absurdos. E, urgente! É minha humilde opinião…

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CARNAVALIXO 2, AÇÃO BIO-AGRADÁVEL.

Hoje fizemos a segunda ação após o carnaval para complementar a limpeza da quarta de cinzas. Como sempre, acabamos tendo a impressão de que o lixo é um ser vivo, que se esconde ou brota do nada já que mesmo após o pente fino da quarta, que ainda contou com outro grupo fazendo a mesma faxina, o resultado foi surpreendente.

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Quarta de cinzas.

Foram mais de 400 latas e 80 garrafas pet. Dezenas de peças de tecido, materiais de borracha, metais e plásticos. Expusemos o lixo nas calçadas do Porto da Barra e muita gente curiosa passou perguntando, se espantando, fotografando e filmando. Muitos turistas estrangeiros, inclusive.

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Surpreeendente.

E na onda da discussão sobre a espuma que ficou famosa após a lavagem das calçadas do Farol da Barra é que veio a inspiração para o nome desta ação. Se é biodegradável ou não, o FUNDO DA FOLIA segue fazendo a sua parte e mostrando o que é “bio degradante” através de ações BIO-AGRADÁVEIS.

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Inspiração para a ação BIO-AGRADÁVEL

Foi linda a presença do grande numero de voluntários surfistas, pescadores, mergulhadores, profissionais liberais, servidores públicos, biólogos, oceanógrafos, estudantes, amantes da natureza e aventureiros. Muitas percepções sobre a ação serão compartilhadas e amplificadas livremente por aí através da ótica de cada voluntário que, não necessariamente, representa a visão do FUNDO DA FOLIA. O projeto não tem interesse comercial ou político, não aceita patrocinadores e nem trata órgão público por nome de gente.

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Turma diversificada.

Entretanto, achamos interessante a diversidade de opiniões por entender que elas ajudam a construir soluções que talvez não existissem se todos pensassem da mesma maneira. Isso é bom para o poder público e para as pessoas que amam esta cidade.

E vai o recado. Durante a resenha antes e depois da ação uma opinião foi quase unânime: esse modelo de carnaval não cabe mais na Barra. Os mais antigos no projeto já sabiam e agora a tese ganha força através dos mais novos. Força que vai se juntando a tantas outras pessoas e entidades que não aguentam mais ver a Barra avacalhada pela “maior festa de rua do planeta”.

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Carnaval ficou gigante!

 

Ficam os agradecimentos especiais aos voluntários, aos curtidores e compartilhadores de nosso humilde trabalho. São vocês que fazem nossas ações cada vez mais BIO-AGRADÁVEIS. De verdade…

DO CARNAVALIXO AO CARNAVALIMPO

 

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Milagres da folia: nasce poste no lugar de árvore! Carros oficiais e trios invadem calçadas…

Mais uma vez o resultado do mergulho após o carnaval foi surpreendente. Retiramos de lixo hospitalar até uma churrasqueira. O que não surpreendeu foi constatar que após tantas ações, tantas denúncias e diversas intervenções pouco incisivas do poder público, a situação vem se agravando.

É decepcionante concluir que não há sinais de conscientização, melhora na educação e nem o aumento do interesse da nossa gente pela conservação dos patrimônios ambientais, históricos e culturais desta cidade.

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CARNAVALIXO 2016

A percepção dos curiosos que passavam no local foi a mesma. Com indignação, baianos e turistas fizeram fotos, filmaram e nos parabenizaram pelo esforço. Até um grupo de Japoneses arregalou os olhos com a sujeira. O guia ficou envergonhado.

Um senhor visivelmente intrigado, começou a puxar conversa. Explicamos que o FUNDO DA FOLIA é um projeto voluntário, sem vínculos comerciais, motivado pelo amor à natureza, à cidade e às pessoas que moram aqui. Falamos que além da conservação ambiental nossa intenção é divulgar, discutir o problema e propor soluções. O Parque Marinho da Barra é um exemplo.

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Folião prevendo a cara da Barra se nada mudar. 

Ele perguntou sobre conscientização. Provocamos a reflexão: Se nem o poder público te se conscientizado dos danos provocados à cidade pelo agigantamento do carnaval na Barra, o que se pode esperar da população? Ele coçou o queixo, e continuamos…

Conscientização rima com educação. Aliás, nossa terra há muito sofre com a pecha de abrigar um dos povos mais sem educação do país. Temos fama de barulhentos, mijões, sujões e cegos ao direito alheio. E nos parece que o poder público incentiva tais comportamentos em ações equivocadas como tem feito nos últimos carnavais.

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Nível de consciência dos poderes públicos.

Achamos, por exemplo, que o imoral desatino de fazer propaganda e usar a máquina pública para potencializar o aumento do consumo de bebidas alcoólicas é uma incoerência. O álcool prejudica a educação, saúde e segurança. É dever de ofício, e não opção de governo, adotar políticas contrárias ao seu consumo.

O carnaval da Barra é outra sandice. Cresceu demais e os danos que provoca já não podem ser desprezados. As súplicas dos moradores, comerciantes locais e meio ambiente são legítimas! O circuito do “glamour” não pode mais esconder a tensão entre a força do capital e a fragilidade dos patrimônios, inclusive humanos, que o mitificam.

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Por trás da urina do “glamour”.

Não é a toa que as cores do intestino deste circuito, mais uma vez, foram o laranja e o preto. Laranja do capital sem alma e preto de almas sem capital. A banalização deste cenário tem gerado uma “carnavalização cultural” com efeitos sociais preocupantes.

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Capital que não já não consegue esconder todas as almas.

Nosso interlocutor interrompeu: “Agora entendo porque Salvador não trata adequadamente seus patrimônios culturais. O foco descabido em festas atrofia a importância destas riquezas tornando-as pano de fundo, latrina e lixeira para trá, trá, trás e lepo, lepos. Vira costume, vira a carnavalização cultural que vai sufocando outras perspectivas. É o caso da Barra. É o caso do Centro de Convenções, do hotel Pestana, do turismo de negócios e da Orquestra Sinfônica da Bahia que seguem agonizando.”

Continuou: “Sobre o álcool, certo que a propaganda altera o comportamento das pessoas. Tanto que já não há diversão sem cerveja em Salvador, uma falácia construída pela subserviência do mercado, meios de comunicação, políticos e governos às cervejarias. Por isso a prefeitura legitima o aumento do consumo, a densidade dos pontos de venda, a propaganda sem critério e a venda sem controle. Vai nutrindo um passivo socialmente perverso. Um dia terá que pagar a conta! ”

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Carnavalização e álcool, união da avacalhação no Farol da Barra.

E arrematou: “Olhando agora este lixo submarino começo a enxergar muito além do que ele realmente aparenta. Tenho a impressão que vocês viraram a festa ao avesso mostrando um lado que ninguém quer mostrar. Há um conflito entre a Barra, seus patrimônios e o carnaval que cresceu demais. Vejo ainda cores que nunca tinha visto”.

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Muito mais que lixo! Do jeito que o povo gosta…

Fizemos questão de dizer que não éramos contra o carnaval, a prefeitura nem a cerveja, mas a favor da nossa cidade. Por isso achamos que o admirável prefeito deve repensar o tipo de relação que mantém com as cervejarias e ter coragem para propor alterações profundas no carnaval da Barra diminuído os dias e atrações.

Legal deixar o circuito Sérgio Bezerra, o Furdunço e o Fuzuê por 3 dias, e criar no CAB, ou em outro local, a CIDADE DO AXÉ para trios e camarotes. Esta medida protegerá os patrimônios da Barra, diminuirá a vergonhosa incitação ao trabalho desumano de uma cor só e dará destaque a cada circuito por suas peculiaridades.

Barracenter
Um Shopping a serviço do álcool. Desvio de finalidade para sobreviver à carnavalização da Barra. O Barracenter vira o Alcoolcenter…

Veio a despedida do nosso amigo: “Vou levar estas ideias ao corajoso prefeito, aos artistas que amam Salvador e aos empresários que enxergarão ótimos negócios na CIDADE DO AXÉ. Vou à imprensa e ao Ministério Público pelas questões ambientais, do patrimônio histórico e da promiscuidade etílica que embriaga nossa cidade!”.

Instigado, fez algumas fotos e nos parabenizou. Ficou alguns segundos olhando para o mar, para o lixo e para o Farol, e seguiu andando cabisbaixo…

Carnaval
Parque Marinho da Barra carnavalizado. Até as lanchas…

Logo veio o comentário de um dos nossos: “Nem para esse cara ser o prefeito, Ivete Sangalo, Ricardo Boechat, o dono de um camarote ou cervejaria disfarçado de gente normal…” E caímos na gargalhada.

Diríamos ainda àquele baiano de alma que a fragilidade megalomaníaca pela busca do “MAIOR” carnaval do mundo, em meio a tantos sacrifícios por um título de efeitos incipientes, é um equívoco. Inteligente seria usar de humilde assertividade para produzir o “MELHOR” carnaval do planeta com sustentabilidade e ganhos sociais permanentes. É só colocar o interesse público, e não do público, como prioridade, e entender que Salvador é bem maior que o carnaval.

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Não parece, mas a luz do Farol é infinitamente maior que o laranja da folia, e infinitamente melhor para a cidade.

Há quem diga, inclusive, que sem ele o padrão de desenvolvimento desta cidade seria bem melhor. Será?

Fato é que a folia precisa ser realmente boa para a cidade. Por isso o CARNAVALIMPO no CAB é uma opção contra o CARNAVALIXO da Barra. Medida urgente que sinaliza o quanto amamos Salvador. É o que pensa o FUNDO DA FOLIA…

 

 

Para saber mais sobre o álcool  e proteção dos patrimônios culturais brasileiros:

http://www.cisa.org.br/artigo/4429/relatorio-global-sobre-alcool-saude-2014.php

http://www.cisa.org.br/artigo/360/politica-nacional-sobre-alcool.php

http://www.cisa.org.br/artigo/276/custos-socio-economicos-uso-alcool.php

http://www.cisa.org.br/artigo/221/problemas-sociais-decorrentes-uso-alcool.php

http://www.cisa.org.br/artigo/3988/acoes-para-reduzir-uso-nocivo-alcool.php

https://jus.com.br/artigos/21215/analise-dos-atuais-mecanismos-de-protecao-do-patrimonio-historico-cultural-artistico-turistico-e-paisagistico-nacional

PARQUE MARINHO DA BARRA

Quando começamos as ações do FUNDO DA FOLIA, em 2009, não imaginávamos ir além da limpeza do fundo do mar na Barra e a conscientização das pessoas, contudo, com o amadurecimento do grupo, passamos a almejar um legado concreto e permanente para a cidade.

Coleta
FUNDO DA FOLIA DESDE 2009

Daí que há pouco mais três anos pensamos em transformar uma pequena área na entrada da Baía de Todos os Santos, entre o Farol da Barra e o Forte Santa Maria, numa unidade de conservação natural. Assim surgiu a ideia do PARQUE MARINHO DA BARRA.

O objetivo é preservar o ambiente marinho, destacar a importância dos sítios arqueológicos submersos, agregar valor aos patrimônios históricos do entorno e fomentar atividades ligadas ao turismo ecológico, pesquisas científicas, diversão em contato com a natureza e educação ambiental.

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Área do PARQUE MARINHO DA BARRA

Algumas regrinhas simples como o controle da pesca, transito de embarcações motorizadas e atividades que causem impactos negativos ao lugar deverão ser implementadas. Não haverá mudanças em relação ao acesso da população para o lazer nas praias, mergulho de contemplação, Surf, SUP, barcos a vela, natação e outras atividades não impactantes.

Um dos resultados esperados é o repovoamento da área por espécies de peixes que deixaram de existir ou estão cada vez mais raros na região. Como um berçário natural protegido, haverá o aumento destas populações inclusive para fora dos limites do parque.

Tal mecanismo, conhecido por “transbordamento”, representará ganhos para as atividades de contemplação e o turismo subaquático dentro do parque, e fora, para a pesca que há muito sofre com a escassez de peixes decorrente de ações predatórias.

Peixes
Ecossistema de relevante valor ambiental.

Não há dúvidas que este pedacinho incrível da Baia de Todos os Santos possui todos os requisitos para o projeto.

Seus patrimônios históricos abrigam entre si um belíssimo ecossistema marinho de relevante valor ambiental. Seus três naufrágios, totalmente acessíveis à visitação pública, repousam silenciosamente naquelas águas cristalinas a espera de melhor aproveitamento cultural e científico. Aquela borda singular da Baia de Todos os Santos possui ainda o charme de um dos bairros de maior visibilidade e beleza cênica de Salvador.

PMBPoligonal
Naufrágios, Fortes e Natureza!

Eis que o PARQUE MARINHO DA BARRA servirá à proteção deste riquíssimo acervo patrimonial incentivando seu uso com sustentabilidade. É levar um olhar diferente para o local promovendo desenvolvimento com responsabilidade. Os benefícios sociais, culturais e ambientais são inquestionáveis.

Em 2014 a ideia tomou forma. O assunto do PARQUE MARINHO DA BARRA virou tema de pesquisa no curso de Oceanografia da UFBA, e o Professor Francisco Barros merece ser lembrado pela sensibilidade à causa. A conclusão do estudo serviu de base para a elaboração do projeto que temos apresentado junto com a AMABARA (Associação de Moradores e Amigos da Barra) às pessoas, órgãos públicos e instituições privadas de interesse direto no assunto.

Ao longo de 2015 contatamos o TAMAR, IPHAN, SPU, MP/BA, Yachty Clube da Bahia, 2º Distrito Naval, Secretaria Municipal da Cidade Sustentável, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Vereador Paulo Câmara, Deputado Eduardo Salles, algumas operadoras de mergulho, pescadores, biólogos, oceanógrafos, urbanistas, entre outros. A empolgação foi geral!

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Tartaruga de pente no naufrágio do Maraldi.

Atualmente o projeto está na Secretaria de Cultura e Turismo de Salvadoor. Em julho do ano passado fomos muito bem acolhidos por lá e resolvemos encerrar provisoriamente nossa peregrinação institucional. De lá pra cá, temos poucas notícias…

Por isso acho prudente “esquentar” as vibrações em torno do projeto para não deixar o tempo afastá-lo muito das nossas pretensões. Sugiro promover reuniões com pessoas de interesse direto, realizar ações práticas e passar a chamar o lugar de PARQUE MARINHO DA BARRA para avançar com a ideia sem ficar na dependência exclusiva do poder público.

Do FUNDO DA FOLIA podem esperar a dedicação apaixonada de sempre, pois o conformismo nunca foi o nosso forte. Precisamos estar em movimento para manter a chama do ativismo voluntário do grupo sempre em alta e este tema nos instiga!

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O FUNDO DA FOLIA está instigado.

É bom lembrar que vamos precisar de uma equipe tecnicamente preparada para, oportunamente, sugerirmos como opção à gestão do parque. Não seria prudente deixar este encargo somente ás indicações políticas. Aliás, também por isso, acho possível fazer o projeto ir acontecendo antes mesmo de sua “efetiva” criação. Para nós ele já existe e temos buscado a conscientizar as pessoas para o seu devido aproveitamento através das nossas humildes ações.

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Vamos esquentar a ideia. As crianças apoiam!

Esta é a situação, e o intento deste pequeno resumo é dar maior publicidade a este nobre desafio. Precisamos juntar gente, boas energias e grandes ideias para conseguir realizar algo que ficará como um eterno presente às futuras gerações.

Afinal de contas, o PARQUE MARINHO DA BARRA é uma ideia positivamente admirável sobre todos os aspectos e com evidentes benefícios à educação da nossa gente. Um projeto abençoado por Todos os Santos desta linda Baía cheia de encantos, muitos deles pedindo socorro silenciosamente no fundo do mar…

Vídeo do Parque Marinho da Barra

Entre lixo, oferendas e o coração.

O FUNDO DA FOLIA continua realizando regularmente suas ações de limpeza do fundo do mar na orla de Salvador. Em meio ao lixo recolhido, temos encontrado diversos objetos usados em oferendas religiosas. Veio a reflexão: que atitude tomar em relação a estes objetos?

Presente em meio ao lixão submarino.
Presente em meio ao lixão submarino.

O projeto ficou dividido. Alguns acham que não devemos realizar a coleta por receio de “retaliações espirituais”, por consideração aos devotos ou apenas por desconhecimento do assunto. Preferem nem tocar nos “presentes”, deixando-os ao sabor das ondas, mesmo que representem riscos aos banhistas a exemplo de louças e vidros quebrados.

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Oferendas quebradas.

Entretanto, a maioria acredita na necessidade da coleta com sua destinação adequada por respeito às entidades religiosas. Pensam na importância da ação para a natureza que além de ser a fonte de todas as crenças, agoniza por imediata proteção e melhores cuidados.

Em rápida busca pela internet descobri diversas abordagens sobre o tema. Religiosos e simpatizantes de várias doutrinas, em maioria, acham necessários os rituais com pouco ou nenhum impacto negativo.

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Objetos que podem machucar banhistas.

Uma das correntes, por exemplo, sugere o uso de orgânicos como folhas para montar os invólucros e frutas como alimentos. Que se pode usar flores, perfumes e bebidas sem que as embalagens façam parte da oferta. Que tudo que não for orgânico desperta, inclusive, a tristeza da Rainha dos Mares.

Outra corrente, mais radical, condena até o uso de orgânicos. Alega que o poder da espiritualidade está na fé e não na oferta de quaisquer bens. Que a essência das religiões reside nas orações e nos cânticos de agradecimento com pedidos de boas vibrações para tudo e para todos. E o oceano é o elemento de conexão com o mundo imaterial devendo estar sempre limpo e saudável.

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Trabalho intenso!

Penso que o uso de orgânicos seja um avanço embora simpatize com a ala mais radical. Estou certo que é possível harmonizar as vontades humanas com as necessidades da natureza, as bênçãos dos Orixás e demais forças de outras religiões.

Entendo que Iemanjá, por exemplo, não precisa dos frascos das alfazemas, dos plásticos que arrumam as flores, dos pregos que armam os cestos, dos pratos, garrafas, velas, colares, espelhos e adereços que, com o melhor dos desígnios, são lançados ao oceano em grande volume.

Vale aumentar o foco nas orações e nos cantos, e reduzir as obrigações com ofertas materiais. Além de praias limpas e rituais sustentáveis haverá resultados positivos em favor da educação e cultura das pessoas da nossa terra. Estou certo que os deuses vão amar!

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Vidros, metais, plásticos…

Assim, pelo entendimento da maioria, seguimos com a nobre missão de limpeza do fundo do mar das nossas praias coletando todos os tipos de resíduos poluentes, inclusive os das oferendas.

Uma missão que nos foi confiada por alguma força do bem, como um ato voluntário de solidariedade coletiva, cujo desígnio primordial é cuidar carinhosamente dos belos jardins ainda saudáveis da casa de Iemanjá.

É isso que fazemos, com o coração!

Fotos: Fundo da Folia.

Prévia do Fundo da Folia 2015

Eis uma prévia das ações do Fundo da Folia para este verão que se inicia. Estamos focados em transformar esta área em um Parque Marinho, uma unidade de conservação ambiental, para ajudar a Baia de Todos os Santos a resistir um pouco contra a degradação a que está submetida. Além de servir de “piloto” para outras investidas do mesmo gênero.

O Fundo da Folia busca este resultado concreto por suas ações. E a Barra, cartão postal da cidade de Salvador, e um dos bairros mais frequentados nesta capital baiana, será o lugar perfeito para o projeto por sua visibilidade e apelo natural, patrimonial e turístico.

Juntem-se a nós, vamos ao Parque Marinho da Barra!

Contatos no facebook: https://pt-br.facebook.com/projetofundodafolia