DO CARNAVALIXO AO CARNAVALIMPO

 

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Milagres da folia: nasce poste no lugar de árvore! Carros oficiais e trios invadem calçadas…

Mais uma vez o resultado do mergulho após o carnaval foi surpreendente. Retiramos de lixo hospitalar até uma churrasqueira. O que não surpreendeu foi constatar que após tantas ações, tantas denúncias e diversas intervenções pouco incisivas do poder público, a situação vem se agravando.

É decepcionante concluir que não há sinais de conscientização, melhora na educação e nem o aumento do interesse da nossa gente pela conservação dos patrimônios ambientais, históricos e culturais desta cidade.

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CARNAVALIXO 2016

A percepção dos curiosos que passavam no local foi a mesma. Com indignação, baianos e turistas fizeram fotos, filmaram e nos parabenizaram pelo esforço. Até um grupo de Japoneses arregalou os olhos com a sujeira. O guia ficou envergonhado.

Um senhor visivelmente intrigado, começou a puxar conversa. Explicamos que o FUNDO DA FOLIA é um projeto voluntário, sem vínculos comerciais, motivado pelo amor à natureza, à cidade e às pessoas que moram aqui. Falamos que além da conservação ambiental nossa intenção é divulgar, discutir o problema e propor soluções. O Parque Marinho da Barra é um exemplo.

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Folião prevendo a cara da Barra se nada mudar. 

Ele perguntou sobre conscientização. Provocamos a reflexão: Se nem o poder público te se conscientizado dos danos provocados à cidade pelo agigantamento do carnaval na Barra, o que se pode esperar da população? Ele coçou o queixo, e continuamos…

Conscientização rima com educação. Aliás, nossa terra há muito sofre com a pecha de abrigar um dos povos mais sem educação do país. Temos fama de barulhentos, mijões, sujões e cegos ao direito alheio. E nos parece que o poder público incentiva tais comportamentos em ações equivocadas como tem feito nos últimos carnavais.

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Nível de consciência dos poderes públicos.

Achamos, por exemplo, que o imoral desatino de fazer propaganda e usar a máquina pública para potencializar o aumento do consumo de bebidas alcoólicas é uma incoerência. O álcool prejudica a educação, saúde e segurança. É dever de ofício, e não opção de governo, adotar políticas contrárias ao seu consumo.

O carnaval da Barra é outra sandice. Cresceu demais e os danos que provoca já não podem ser desprezados. As súplicas dos moradores, comerciantes locais e meio ambiente são legítimas! O circuito do “glamour” não pode mais esconder a tensão entre a força do capital e a fragilidade dos patrimônios, inclusive humanos, que o mitificam.

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Por trás da urina do “glamour”.

Não é a toa que as cores do intestino deste circuito, mais uma vez, foram o laranja e o preto. Laranja do capital sem alma e preto de almas sem capital. A banalização deste cenário tem gerado uma “carnavalização cultural” com efeitos sociais preocupantes.

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Capital que não já não consegue esconder todas as almas.

Nosso interlocutor interrompeu: “Agora entendo porque Salvador não trata adequadamente seus patrimônios culturais. O foco descabido em festas atrofia a importância destas riquezas tornando-as pano de fundo, latrina e lixeira para trá, trá, trás e lepo, lepos. Vira costume, vira a carnavalização cultural que vai sufocando outras perspectivas. É o caso da Barra. É o caso do Centro de Convenções, do hotel Pestana, do turismo de negócios e da Orquestra Sinfônica da Bahia que seguem agonizando.”

Continuou: “Sobre o álcool, certo que a propaganda altera o comportamento das pessoas. Tanto que já não há diversão sem cerveja em Salvador, uma falácia construída pela subserviência do mercado, meios de comunicação, políticos e governos às cervejarias. Por isso a prefeitura legitima o aumento do consumo, a densidade dos pontos de venda, a propaganda sem critério e a venda sem controle. Vai nutrindo um passivo socialmente perverso. Um dia terá que pagar a conta! ”

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Carnavalização e álcool, união da avacalhação no Farol da Barra.

E arrematou: “Olhando agora este lixo submarino começo a enxergar muito além do que ele realmente aparenta. Tenho a impressão que vocês viraram a festa ao avesso mostrando um lado que ninguém quer mostrar. Há um conflito entre a Barra, seus patrimônios e o carnaval que cresceu demais. Vejo ainda cores que nunca tinha visto”.

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Muito mais que lixo! Do jeito que o povo gosta…

Fizemos questão de dizer que não éramos contra o carnaval, a prefeitura nem a cerveja, mas a favor da nossa cidade. Por isso achamos que o admirável prefeito deve repensar o tipo de relação que mantém com as cervejarias e ter coragem para propor alterações profundas no carnaval da Barra diminuído os dias e atrações.

Legal deixar o circuito Sérgio Bezerra, o Furdunço e o Fuzuê por 3 dias, e criar no CAB, ou em outro local, a CIDADE DO AXÉ para trios e camarotes. Esta medida protegerá os patrimônios da Barra, diminuirá a vergonhosa incitação ao trabalho desumano de uma cor só e dará destaque a cada circuito por suas peculiaridades.

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Um Shopping a serviço do álcool. Desvio de finalidade para sobreviver à carnavalização da Barra. O Barracenter vira o Alcoolcenter…

Veio a despedida do nosso amigo: “Vou levar estas ideias ao corajoso prefeito, aos artistas que amam Salvador e aos empresários que enxergarão ótimos negócios na CIDADE DO AXÉ. Vou à imprensa e ao Ministério Público pelas questões ambientais, do patrimônio histórico e da promiscuidade etílica que embriaga nossa cidade!”.

Instigado, fez algumas fotos e nos parabenizou. Ficou alguns segundos olhando para o mar, para o lixo e para o Farol, e seguiu andando cabisbaixo…

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Parque Marinho da Barra carnavalizado. Até as lanchas…

Logo veio o comentário de um dos nossos: “Nem para esse cara ser o prefeito, Ivete Sangalo, Ricardo Boechat, o dono de um camarote ou cervejaria disfarçado de gente normal…” E caímos na gargalhada.

Diríamos ainda àquele baiano de alma que a fragilidade megalomaníaca pela busca do “MAIOR” carnaval do mundo, em meio a tantos sacrifícios por um título de efeitos incipientes, é um equívoco. Inteligente seria usar de humilde assertividade para produzir o “MELHOR” carnaval do planeta com sustentabilidade e ganhos sociais permanentes. É só colocar o interesse público, e não do público, como prioridade, e entender que Salvador é bem maior que o carnaval.

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Não parece, mas a luz do Farol é infinitamente maior que o laranja da folia, e infinitamente melhor para a cidade.

Há quem diga, inclusive, que sem ele o padrão de desenvolvimento desta cidade seria bem melhor. Será?

Fato é que a folia precisa ser realmente boa para a cidade. Por isso o CARNAVALIMPO no CAB é uma opção contra o CARNAVALIXO da Barra. Medida urgente que sinaliza o quanto amamos Salvador. É o que pensa o FUNDO DA FOLIA…

 

 

Para saber mais sobre o álcool  e proteção dos patrimônios culturais brasileiros:

http://www.cisa.org.br/artigo/4429/relatorio-global-sobre-alcool-saude-2014.php

http://www.cisa.org.br/artigo/360/politica-nacional-sobre-alcool.php

http://www.cisa.org.br/artigo/276/custos-socio-economicos-uso-alcool.php

http://www.cisa.org.br/artigo/221/problemas-sociais-decorrentes-uso-alcool.php

http://www.cisa.org.br/artigo/3988/acoes-para-reduzir-uso-nocivo-alcool.php

https://jus.com.br/artigos/21215/analise-dos-atuais-mecanismos-de-protecao-do-patrimonio-historico-cultural-artistico-turistico-e-paisagistico-nacional

6 thoughts on “DO CARNAVALIXO AO CARNAVALIMPO

  1. Caro Bernardo Mussi, receba o prezado amigo-cidadão e grande sobrinho, nossa mais irrestrita solidariedade pelo bem constrúido texto. À nosso ver, trata-se de uma péça documental da maior importancia, a ser usada pela pelas presentes e futuras gerações. Por oportuno lembramos, que no Brasil, como de resto em qualquer lugar do mundo,( é o que temos percebido), somente são encaminhadas mediante uma ou mais de uma ponte da esfera política( não necessariamente partidária) na busca das soluções desejadas. O texto é tão verdadeiro, que juntos, você, seus parceiros de ideias, são merecedores de novas vozes de apôio. Contem conosco. Muito obrigado por ter nos permitido conhecer tantas verdades.
    Julival Fonsêca de Góes ( Tel. 71- 9 8774-1238/3334-5539)

  2. Minha admiração e respeito pelo trabalho realizado. O texto explicita o desejo do qual partilho também, uma cidade mais humana onde quem nela mora pode desfrutar de suas belezas naturais e que por isso respeita e cuida de seus encantos e recantos. Inverter prioridades é um passo necessário para dias melhores em nossa cidade miscigenada e arrodeada de água😉

    • Excelente Ana! Que bom que compartilha este sentimento de pertencimento a esta cidade tão bela e tão desconectada de suas vocações mais significativas. Obrigado pelo retorno. Saúde e paz!

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