Praia e castigo.

PATRIMÔNIO CULTURAL

Dia 12 de outubro foi o dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, um feriado nacional ensolarado que levou milhares de pessoas à praia do Porto da Barra em Salvador. O que se viu neste dia, e na manhã seguinte, foi algo assustador, o prenúncio da catástrofe que será o verão que se aproxima para um dos maiores patrimônios culturais do país.

Naquele dia, por volta das 14 horas, tentei chegar até a praia para dar um mergulho em louvor a nossa Padroeira, mas foi impossível. Raramente vi tanta gente por aquele pequeno espaço da orla de Salvador.

CASTIGO NAS RUAS

Foi difícil andar pelas calçadas. Elas estavam tomadas por isopores, Baianas de Acarajé, carrocinhas de cachorro quente, churrasquinhos, maquinas de caldo de cana, latas com carvão para queijinhos coalho, sombreiros, cangas, óculos, artesanatos, entre outras coisinhas pra gringo ver.

Invasão de ambulantes

A situação da balaustrada era igualmente caótica. Também loteadas por ambulantes em sua maioria com caixas de isopor cheias de cerveja, fomentavam aglomerações de pessoas “comendo água” (leia-se, consumindo bebidas alcoólicas) e fazendo aquela “lambança” com seus carros de som nas alturas e o consumo deseducado de tudo que era “iguaria gastronômica” disponível nos arredores.

Andei para o largo do Forte Santa Maria onde uma verdadeira “festa de largo” acontecia e de lá pude ver como estava a praia. Se nas calçadas e balaustradas a situação era caótica, imaginem como estava a areia. Algo difícil de descrever.

SOMBREIROS ALUGADOS POR AMBULANTES
Por todos os lugares que olhava o cenário era o mesmo, destruição total. E se estamos ainda na primavera, imaginem o que vai acontecer no verão quando a praia ficar lotada a partir do meio da semana, vierem os eventos, os ambulantes se multiplicarem, os órgãos públicos aproveitarem o caos para justificarem suas incompetências e a mídia começar a patrocinar verdadeiras panacéias com seus comentários equivocados ao incentivarem a bebedeira e a “comelança” na praia em dias de sol.
CASTIGO NAS AREIAS

Não posso imaginar que este cenário caótico seja do interesse de alguém que almeja uma cidade melhor, mais limpa e saudável. Não posso acreditar que exista um conluio velado entre alguns setores públicos e iniciativa privada para tirar proveito disso tudo. Será?

Quem assistiu o filme Tropa de Elite 2 certamente ficará desconfiado…

Como não adianta especular sobre a “teoria da conspiração” em desfavor da praia do Porto da Barra, vou concordando com um senhor que freqüenta a praia há mais de 40 anos que atribui a balbúrdia, infelizmente, à invasão dos milhares de ambulantes que levam o lixo até as praias e seu entorno fomentando a deseducação generalizada de nossa população. Aspecto, aliás, do qual Salvador é campeã.

CASTIGO NO FUNDO DO MAR

Este senhor não tem dúvidas, inclusive, que muitos dos problemas do bairro são potencializados pelo descontrole nesta atividade. Além da poluição das praias e seu entorno, há impacto negativo sobre os eventos, vias públicas, equipamentos públicos, comércio local, turismo, conservação de patrimônios históricos e na própria qualidade de vida dos moradores que pagam um dos IPTUs mais caros de Salvador.

QUEM LEVA O LIXO PARA A PRAIA?

Segundo o velho, não há solução para o problema se o corte na atividade dos ambulantes não for radical. Para ele não adianta ordenar os trabalhadores se a prefeitura não conseguir fiscalizá-los adequadamente, e isso é algo que jamais presenciou em toda a sua vida. Tanto assim que a situação atual é medonha.

A princípio achei o velho senhor um pouco radical e questionei o que seria feito com os trabalhadores que há muitos anos labutam sua sorte na praia do Porto da Barra. A resposta foi que não se pode penalizar a sociedade como um todo em detrimento de dezenas de cidadãos que não fazem por onde merecerem a concessão de um espaço público tão nobre para trabalharem. E a orla de Salvador é cheia de praias sem Fortes, sem Marcos, sem naufrágios, sem história e sem cultura.

QUEM GANHA DE VERDADE COM ISSO?

Não se pode dizer que ele não tenha razão…

Da minha parte, sem ser tão radical, acredito que proibir ambulantes nas calçadas e balaustradas, recadastrar, ordenar e reduzir pelo menos 60% dos que ficam nas areias já seria um bom começo. Se houver fiscalização permanente, acho que teremos de volta a 3ª melhor praia urbana do mundo servindo a todos como patrimônio cultural e ambiental de grande valor.

No dia seguinte ao feriado, fui cedinho dar um mergulho na praia antes de ir para o trabalho. Ao chegar na balaustrada fiquei seriamente inclinado a concordar com a posição do velho senhor sobre a “tolerância zero” em relação aos ambulantes.

AREIA BOA PARA BACTÉRIAS

O lixo, a paisagem deprimente e o mau cheiro deixados pela “muvuca” do dia anterior eram insuportáveis. Caí no mar enojado em meio a sujeira que boiava ao meu lado apenas para matar a vontade do dia anterior.

BANHO DE MAR

E em meio a tantas especulações sobre o que fazer para salvar um patrimônio cultural tão importante, certo é que a praia do Porto da Barra não merece tanto castigo. Nem a Padroeira do Brasil…

4 thoughts on “Praia e castigo.

  1. A permissividade dos órgãos públicos, a deseducação geral, a crise social etc e tal são para serem analisados e adequar pra melhor esta situação que se anuncia para o próximo Carvaval na Barra.

  2. VALEU BONGA!
    INFELIZMENTE ESQUECERAM DESSA PRAIA LINDA, ONDE A MARGINALIDADE, A SUJEIRA, A FALTA DE CUIDADO COM UM PATRIMONIO QUE EM QQ LUGAR DO MUNDO SERIA HIPER VALORIZADO, COMO UM BALNEÁRIO DE ÁGUAS CRISTALINAS!
    É UM VERDADEIRO DESCASO!!!!!

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