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A TRISTEZA DAS CRIANÇAS

 

ANJOS QUE MERGULHAM

Depois que escrevi o FUNDO DA FOLIA falando sobre a enorme quantidade de latinhas de cerveja e refrigerantes encontradas no fundo do mar após o carnaval, com a repercussão mundial que a matéria teve, pensei que as coisas fossem melhorar este ano. Estava enganado.

Hoje, em plena primavera, fui mergulhar com minha filha de 10 anos e uma coleguinha de escola da mesma idade para mostrar-lhes as belezas do fundo do mar na região da Barra. Não imaginava que presenciaria, ainda nesta época do ano, um festival de latinhas fazendo a prévia do verão e dos eventos que se aproximam.

Fiquei surpreso pelo achado. Sem os eventos, mas com uma população flutuante bastante numerosa na Barra durante os dias de sol, uma multidão de ambulantes se instala por todos os espaços disponíveis na orla do bairro para fomentar um costume que tem se tornado cada vez mais nocivo ao meio ambiente e a nossa cultura, que é o consumo exagerado de bebidas alcoólicas na praia.

COSCIÊNCIA E ESPERANÇA

Basta olhar o que a maioria dos ambulantes vende como carro chefe, e mais ainda o que encontramos no fundo do mar. É impressionante a quantidade de latas de cerveja que se amontoam em determinados locais. Não há outro material descartado, outro tipo de lixo, que se compare ao volume do que vemos nestas áreas submersas.

Minha filha e sua coleguinha ficaram decepcionadas quando viram a concentração destes resíduos em meio à vida marinha. Aliás, não há quem não consiga esboçar alguma reação ao ver cenas tão marcantes, ao vivo e a cores. Cenas que nos fazem refletir sobre a gravidade da atual situação da educação e saúde da nossa gente, e também da falta de uma ação eficaz dos órgãos públicos.

As crianças ficaram um bom tempo olhando com atenção aquelas latinhas rolando ao sabor das correntes. Depois de um tempo, subiram na prancha de surf que levo como apoio e começaram a me questionar algumas óbvias considerações sobre o assunto.

AINDA É PRIMAVERA. E NO VERÃO?

Perguntaram-me como é que as latinhas conseguem ficar agrupadas daquela maneira. Respondi que na verdade elas acabam encalhando em algumas “valas” submarinas após serem levadas do raso para o fundo com o movimento das marés.

Queriam saber os motivos pelos quais não víamos com freqüência outros tipos de resíduos poluentes além das latinhas de cerveja. Mostrei ainda de dentro d’água a quantidade de ambulantes vendendo a bebida nas areias e calçadas, e a multidão de pessoas consumindo o produto que custa o preço de uma garrafa de água mineral.

Questionaram-me sobre os impactos negativos na vida marinha. Afirmei sem a menor dúvida que aquilo poderia ser uma das razões para que seus filhos ou netos, em futuro próximo, jamais tivessem a oportunidade de contemplar os peixes que estávamos vendo, os corais, aquelas águas cristalinas.

A HORA DAS PERGUNTAS. UMA SEM RESPOSTA...

Só não consegui responder a mais óbvia das perguntas: por que ninguém faz nada?

Engoli seco, pensei rápido e a única coisa que passou em minha cabeça foi o próprio sentimento de que todas as ações que havia feito até ali, incluindo O FUNDO DA FOLIA no Carnaval deste ano, não surtiram efeito algum. Fiquei de responder depois, e seguimos nosso mergulho.

Mais adiante encontramos novos focos de latinhas e em todos estes momentos as crianças paravam para comparar a quantidade e a marca das embalagens. Achei aquilo de uma importância fenomenal para a formação da consciência daquelas futuras brasileirinhas em favor da educação e saúde da nossa gente.

BRASILEIRINHAS QUE PODEM MUDAR O MUNDO

Depois de quase duas horas mergulhando saímos do mar. Naquele momento, ao chegar à beira da praia e começar a andar pelas areias lotadas de gente se fartando de comidas e bebidas em meio a um turbilhão de ambulantes, percebi que as crianças entenderam a minha falta em relação àquela pergunta que havia ficado sem reposta.

As latas que estavam no fundo do mar estavam bem ali, por toda a areia, espalhadas como reflexo de uma cultura de praia pouco saudável e completamente deseducada. O costume do consumo exagerado de bebidas alcoólicas em Salvador já venceu a força dos órgãos públicos e aos poucos vai vencendo a resistência do meio ambiente.

Mas há esperança enquanto mentes de anjo, como daquelas crianças, puderem ter a oportunidade de vivenciar experiências assim para compartilhar em seus mundos, em suas escolas, em suas vidas.

O LIXO MAIS EVIDENTE NO FUNDO DO MAR

Só não há razão para continuarmos sem saber os motivos pelos quais ninguém consegue fazer nada que consiga reverter este quadro lamentável na raiz do problema. Não há mais época do ano em que o cenário fique livre de tantas latinhas.

Para a tristeza de nossas crianças…

 

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  1. Carlão Moraes
    16/11/2010 às 12:55 AM | #1

    É Bonga, vc como sempre expressa sua bela sensibilidade e criatividade, perfeitamente consciente, e mais, respeitando tudo e a todos e focando por onde as pessoas transformar-se pra melhor, especialmente as novas gerações. Sabe aquela mensagem da estrelinha jogada no mar que faz a diferença pra um mundo melhor? É por ai positivamente, e jogar uma latinha ao mar é o inverso, é o pior. Quando os obstáculos são muitos, só nos cabe perceverar, admiro vc que faz a sua parte, está sempre jogando uma estrelinha no Mar, e vc me motivou planejar em jogar uma estrelinha tb, assim eu pensei na velha tríplice coroa, Barravento, Farol e Espanhol de Surf, e como novidade inserir nesse PROJETO a colocação de avisos públicos nos dias do evento de Surf ( início de maio), avisos jogue a latinha no cesto, e focar a questão da consciência da preservação do meio ambiente. Bem, isso dá trabalho rsssssssssssssssss É minha estrelinha a lançar no mar e não uma latinha, capite? Estou cansado de mim mesmo, perto dos 60 e realizando muito muito menos do aquilo que falo, necesito jogar uma estrelinha pra mim mesmo mudar, ai o mundo muda, e quem sabe vai ser tb esse PROJETO de tão grande consciência ecológica. Zé o que vai achar disso tudo?

    • 16/11/2010 às 1:03 AM | #2

      Cara, valeu pelos elogios matria. Sobre as estrelinhas, vc j jogou muitas pelos mares da vida. E continua jogando… Sobre a TRIPLICE COROA, se fosse h uns 15 anos atrs, blza, mas hoje, vai ter que rezar a todos os santos e a todos os orixs para que faam um milagre para o Espanhol quebrar. Tem que ter muita disposio para encarar algo to cheio de estrutura e incerto em relao a datas, periodos, etc… Mas a ideia de ajudar na nossa briga de educar a turma por aqui excelente… Vamos amadurecer… Bmussi

  2. JULIARA
    19/11/2010 às 6:36 PM | #3

    MEU IRMÃO, COMO SEMPRE VOCÊ DANDO ESSA FORÇA PARA A MANUTENÇÃO E CUIDADO DE UM PATRIMÔNIO QUE PELO VISTO, ESTÁ CADA VEZ MENOS CUIDADO – A PRAIA DA BARRA (PORTO E FAROL). EM QUALQUER LUGAR DO MUNDO, SERIA UM REFÚGIO PARA OS AMANTES DE HISTÓRIA, MERGULHO, SURF OU SIMPLESMENTE PARA DESLUMBRAR AQUELE POR DO SOL, QUE É ESPETACULAR! É UMA PENA QUE A FALTA DE INFORMAÇÃO , DE EDUCAÇÃO DO POVO E O DESCASO DAS AUTORIDADES, LEVE A UMA CENA DEPRIMENTE COMO ESSA NO FUNDO DO MAR. É PRECISO LEMBRAR OS ORGÃOS RESPONSÁVEIS DA IMPORTÂNCIA DE SE PRESERVAR E QUE TODOS IRIAM GANHAR COM ISSO. PQ VC NÃO LANÇA ESSE PROJETO DE ¨¨RENOVAÇÃO DA BARRA¨¨? PODERIA COMEÇAR COM EXPOSIÇÃO DE FOTOS , PASSEATA DOS MORADORES EM PROL DAS MUDANÇAS NA BARRA , OU SEJA, PROTESTOS PÚBLICOS QUE PODERIAM CHEGAR ÀS AUTORIDADES E AOS ORGÃOS DE COMUNICAÇÃO.
    FICA AÍ A MINHA DICA.
    BJS

    • 19/11/2010 às 6:57 PM | #4

      Puxa vida, mais uma vez agradeo pelas dicas que so sempre bem vindas. Afinal de contas vc tem os olhos de quem mora em So Paulo e o corao de quem morou na Bahia. Sua impresso sobre o assunto importantssima para ns que estamos tentando melhorar as coisas por aqui. O problema que apesar de culparem a populao pela falta de educao e outras coisinhas negativas, a culpa mesmo das instituies pblicas que demonstram uma total falta de compromisso com o desenvolvimento sustentvel da cidade. Em suma, a falta de educao e o desleixo so institucionais. Uma pena… Beijo em todos a, Bmussi

  3. regina martinelli
    21/11/2010 às 12:34 AM | #5

    que tal mandarmos este belo e terrível documento para nossos governantes? vamos entupir as caixas de e-mails deles , já. Parabéns pelo documento!

  4. Daniele
    22/11/2010 às 2:18 PM | #7

    é verdade a pergunta que não quer calar.
    Por que ninguém consegue fazer nada? :(

    Comovente.

    • 22/11/2010 às 10:54 PM | #8

      Acho, infelizmente, que as pessoas que produzem, as que levam para a praia e as que consomem não estão nem aí. Pudera, se os órgão públicos também estão cegos para isso…Valeu e vamos em frente… BMussi

  5. auro pisani
    22/11/2010 às 2:44 PM | #9

    Bonga, mais uma vez você vem nos conscientizar da importância de manter nossas riquezas, não intocadas, mas pelo menos com um mínimo de preservação.
    Da outra vez a materia rendeu muitos frutos, pena que os governantes nada fizeram para amenizar a situação.

    Peço, novamente, sua autorização para enviar a materia aos governantes, instituições e algumas ongs internacionais.

    Grande abraço de seu amigo e admirador.

    • 22/11/2010 às 10:53 PM | #10

      Grande Auro Dinossauro, amigo véi do surf. Será um prazer contar com sua divulgação por aí. Em nome da conservação dos nossos ambientes e da qualidade das nossas vidas. Estas imagens das latinhas foram tiradas bem no pico do surf no Espanhol. Lugar que vc conhece bem. Abço, Bmussi

  6. bira medeiros
    22/11/2010 às 2:54 PM | #11

    Grande Bonga.

    Sei que parece em vão mais tem muita gente fazendo alguma coisa, não desista! outro dia também deparei com uma situação parecida, fiz um surfe na praia de Icarai (local – pedra de itapuca) surfe de primeira, pão de açucar, museu do mac entre outras belezas e a agua da baia da guanabara muito suja, nós surfamos e cuspia o tempo todo, com medo de contrair doenças, também como você fiz um texto… entendo que de alguma forma tem-se feito alguma coisa. Não desista!!!

    birinha da bahia.

    • 22/11/2010 às 10:51 PM | #12

      Birinha amigo véi. É por isso que Icaraí é conheceida como COCORAÍ, infelizmente. A coisa aí está em um estágio que acredito ainda podemos evitar por aqui. É um sonho mas não é impossível. Valeu o contato e fica em paz. BMussi

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